sábado, 11 de agosto de 2012

HISTÓRIA DE UM ACIDENTE DE TRÂNSITO.






No dia em que morri o sol brilhava intensamente. Era uma linda primavera. Aberta para a plena alegria de viver. Sentia o colorido e a fragrância das flores e o afinado canto dos pássaros, quando não estavam à cata de alimentos para os seus filhotes. Na saída da casa, lembro-me, era uma quarta-feira ensolarada, meu filho caçula me abraçou e me beijou na despedida de uma viagem a trabalho que teria de realizar numa cidade próxima. O vizinho cumprimentou-me, desejando boa sorte. Compromisso agendado para o início da tarde. Há doze anos sou habilitado e dirijo veículos. Nunca me envolvi num acidente automobilístico.


Entro no automóvel cedido pela empresa. Um veículo sofisticado, moderno e potente. Com freio ABS e air bag. Sempre  desejei possuir um veículo desse. O meu tinha doze anos de uso, e estava na oficina para conserto. Prometi, porém, ao meu patrão que conduziria com todo zelo. Coloquei o cinto de segurança.


Quando estou trafegando pelas ruas, só de pensar em dirigir á vontade, mal pude conter o ímpeto de botar aquela possante e bonita máquina a cem quilômetros por hora. Saí logo para a rodovia ... queria correr. Sentir o vento fustigar minha face, ver os 140 por hora no velocímetro. Pisei firme ao acelerador, alcancei os noventa, ultrapassei os cem, um carro na minha frente não andava e quis ultrapassá-lo.

Infleti à esquerda e apertei o pé no acelerador, mas não vi uma carreta, que vinha em na sua mão de direção, e colidimos frontalmente. Ouvi um estrondo, pedaços de ferro e vidros voaram. Senti meu corpo despedaçar-se e percebi que gritava de dor. Um só grito. Havia muito popular me olhando com sentimentos de tristeza e pavor. Reconheci um amigo de infância com olhar de horror, porém ele não me reconheceu. Meu corpo estava estraçalhado e preso entre as ferragens. Eu não mais sentia dor alguma, tentei erguer-me, mas não conseguia  sequer mover um dedo.

Ouvia que uma ambulância e aproximava de mim, soando o alarme estridente. Depois tudo sumiu numa imensa escuridão. Acordei e ao meu lado havia médicos, guardas, enfermeiros. Cobriram-me com um lençol. Puseram-me em uma maca e, após, na ambulância. Levaram-me ao hospital mais próximo, e depois para o necrotério. Hei! Tirem isso de cima de mim. Tirem-me dessa mesa gelada de mármore! Eu não posso está morto, tenho só trinta anos. Minha esposa e meus filhos me esperam. Quero e preciso viver. Tirem este lençol que me incomoda. Por favor, deixem-me sair daqui!

Mas ninguém me ouvia, não sei por quê. Minha esposa, com o rosto lavado em lágrimas, chorava desesperadamente. Afirmou ao médico que realmente era meu corpo. Minha mulher debruçada sobre o meu tórax, soluçava em desespero, acariciando meus cabelos. Meus velhinhos e queridos pais ainda não haviam sido comunicados, nem meus filhos.


Por favor, acordem-me! Tirem-me deste ataúde e deixem-me sair. Tenho somente trinta anos e uma vida inteira pela frente. Quero viver. Preciso trabalhar para oferecer uma vida digna para minha família. Quero o amor dos meus familiares. Quero continuar amando a vida, ver meus filhos crescer, competir nos esportes, estudar ... Tenho orgulho da minha prole. Quero ver o meu clube do coração sagrar-se campeão este ano.

Deus! Onde estás que não respondes? Mesmo que não queira responder, dá-me outra chance, prometo que serei o motorista mais cuidadoso do mundo. Tudo o que desejo é somente viver. Quero continuar compartilhando a vida com meus filhos, esposa, familiares e amigos. O verão e as férias se aproximam. Quero na praia rever meus familiares e amigos. Por favor, me dê somente mais esta chance!

(texto extraído da obra, TRÂNSITO, de Almeida JUELCI).

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